Estudos Bíblicos

καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος: O que João realmente afirma sobre o Logos?

Uma análise exegética de João 1:1 a partir do texto grego, da crítica textual, dos testemunhos manuscritos e da sintaxe de θεός — e o que essa construção revela sobre a identidade do Logos.

Guilherme Oliveira · 25 de setembro de 2026

Microfone dourado da Voz Teológica
Poucos textos do Novo Testamento tiveram impacto tão profundo na história da cristologia quanto João 1:1. Em apenas uma frase, o evangelista apresenta três afirmações que precisam ser lidas cuidadosamente: Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος En archē ēn ho lógos “No princípio era o Logos.” καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν kai ho lógos ēn pros ton Theon “E o Logos estava com Deus.” καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος kai theos ēn ho logos “E o Logos era Deus.” A terceira cláusula, particularmente, tornou-se objeto de intensos debates linguísticos, teológicos e cristológicos. O objetivo deste estudo não é simplesmente defender uma tradução tradicional, mas perguntar: O que o texto grego de João 1:1 realmente afirma? Para responder, precisamos considerar simultaneamente crítica textual, testemunhos manuscritos, morfologia, sintaxe, semântica, contexto literário e desenvolvimento da cristologia joanina. 1. O TEXTO GREGO O texto crítico de João 1:1 apresenta: Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος. Transliteração En archē ēn ho lógos, kai ho lógos ēn pros ton Theón, kai Theós ēn ho lógos. Tradução “No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus.” A ordem das palavras em grego, entretanto, não deve ser simplesmente reproduzida mecanicamente em português. A terceira cláusula possui uma estrutura sintática particularmente importante, que será analisada posteriormente. 2. TEMOS O MANUSCRITO ORIGINAL? Antes de analisar o versículo, precisamos corrigir uma expressão que frequentemente aparece em estudos populares. Não possuímos o manuscrito original — o autógrafo — do Evangelho de João. Portanto, não podemos dizer: “O manuscrito original de João 1:1 diz...” O procedimento acadêmico correto é falar em testemunhos manuscritos. Entre os testemunhos antigos relevantes para João estão os papiros 𝔓66 e 𝔓75, além dos grandes códices do século IV, como o Codex Sinaiticus (א) e o Codex Vaticanus (B). O importante é comparar esses testemunhos e verificar quais leituras possuem melhor sustentação. 3. O TESTEMUNHO DOS MANUSCRITOS Um dos aspectos mais interessantes de João 1:1 é que a forma: θεὸς ἦν ὁ λόγος é testemunhada por manuscritos muito antigos. 𝔓66 — Papyrus Bodmer II O P66 é um importante manuscrito de João, geralmente datado entre o final do século II e o início do III. Na passagem de João 1:1, ele preserva a leitura correspondente a: καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος O nome θεός aparece em forma abreviada, segundo a prática dos nomina sacra. 𝔓75 — Papyrus Bodmer XIV–XV O P75, geralmente datado do século III, também contém extensa parte do Evangelho de João e preserva em João 1:1 a leitura: καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος Codex Vaticanus — B O grande códice do século IV também preserva a construção sem artigo: θεὸς ἦν ὁ λόγος Codex Sinaiticus — א O Codex Sinaiticus, também do século IV, igualmente testemunha a forma sem o artigo diante de θεός. Assim, a ausência do artigo em João 1:1 não é uma peculiaridade introduzida por tradutores modernos. Ela possui testemunho manuscrito antigo e amplo. � Bible.org 4. A PRIMEIRA EXPRESSÃO: Ἐν ἀρχῇ Ἐν ἀρχῇ En archē “No princípio” A expressão é formada pela preposição: ἐν — en e pelo substantivo: ἀρχή — archē no dativo: ἀρχῇ — archē A escolha de João é literariamente significativa. A Septuaginta começa Gênesis 1:1 com: Ἐν ἀρχῇ ἐποίησεν ὁ θεός... “No princípio Deus criou...” João inicia seu prólogo com a mesma expressão: Ἐν ἀρχῇ... Mas, em vez de começar imediatamente com a criação, João declara: ἦν ὁ λόγος “era o Logos.” Isso coloca o Logos no horizonte temporal anterior à criação descrita posteriormente no próprio prólogo. 5. ἦν — O VERBO “ERA” A palavra: ἦν — ēn é o imperfeito indicativo ativo, terceira pessoa do singular, do verbo: εἰμί — eimí “ser/estar”. João utiliza ἦν repetidamente: Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος “No princípio era o Logos.” O contraste torna-se particularmente interessante quando chegamos a João 1:14: ὁ λόγος σὰρξ ἐγένετο ho logos sarx egeneto “o Logos tornou-se carne.” Temos: ἦν — era/existia e: ἐγένετο — tornou-se/veio a ser. A distinção verbal contribui para a apresentação joanina da preexistência do Logos antes de sua encarnação. 6. ὁ λόγος — O LOGOS ὁ λόγος ho lógos λόγος pode possuir diversos sentidos dependendo do contexto: palavra; discurso; mensagem; declaração; expressão; razão. Entretanto, no prólogo joanino, o Logos é apresentado de maneira pessoal. João afirma posteriormente: πάντα δι᾽ αὐτοῦ ἐγένετο panta di' autou egeneto “Todas as coisas vieram a existir por meio dele.” O pronome: αὐτοῦ — autou refere-se ao Logos e é masculino singular. A narrativa prossegue até chegar a: ὁ λόγος σὰρξ ἐγένετο “o Logos tornou-se carne” (Jo 1:14). Portanto, o Logos do prólogo não funciona simplesmente como uma abstração filosófica impessoal. 7. ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν Agora chegamos à segunda afirmação: καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν kai ho lógos ēn pros ton Theón Tradicionalmente: “E o Logos estava com Deus.” Observe a expressão: πρὸς τὸν θεόν A preposição: πρός — pros é seguida pelo acusativo: τὸν θεόν — ton Theón A escolha de πρός pode transmitir mais do que simples proximidade espacial. No contexto, ela apresenta o Logos em relação com Deus. E aqui surge uma observação fundamental: João escreve: ὁ λόγος ... πρὸς τὸν θεόν e não simplesmente: ὁ λόγος = ὁ θεός O Logos está com Deus. Existe, portanto, uma distinção relacional. 8. ὁ θεός E θεός Aqui está o centro da discussão. Na segunda cláusula encontramos: τὸν θεόν Na terceira: θεός Observe: João 1:1b πρὸς τὸν θεόν pros ton Theon João 1:1c θεὸς ἦν ὁ λόγος Theos ēn ho logos Na primeira ocorrência, θεός possui artigo. Na segunda, não possui artigo. É justamente aqui que surgem algumas interpretações inadequadas. 9. “SEM ARTIGO” SIGNIFICA “UM DEUS”? Não. Essa afirmação é linguisticamente simplista. No grego koiné, a ausência do artigo não significa automaticamente indefinição. Portanto, o raciocínio: “θεός não possui artigo; logo significa ‘um deus’” não é uma regra válida. A discussão envolve a função sintática e semântica do substantivo. Em João 1:1c: θεὸς ἦν ὁ λόγος θεός funciona como predicativo nominal, enquanto: ὁ λόγος é o sujeito. O artigo presente em ὁ λόγος ajuda a identificar o sujeito da construção. 10. A FORÇA QUALITATIVA DE θεός Um dos estudos clássicos sobre essa construção foi publicado por Philip B. Harner, que analisou substantivos predicativos anartrosos, incluindo especificamente João 1:1. � JSTOR A discussão posterior frequentemente descreve θεός em João 1:1c como tendo força predominantemente qualitativa. Em termos simples: João não está simplesmente dizendo que o Logos é “um indivíduo chamado Deus” nem está dizendo que o Logos é a mesma pessoa que o Pai. Ele está caracterizando a natureza do Logos. Por isso, uma paráfrase explicativa possível seria: “O Logos possuía a natureza de Deus.” Mas é importante não transformar essa paráfrase em uma tradução literal. A tradução: “o Logos era Deus” continua sendo perfeitamente defensável. 11. A ORDEM DAS PALAVRAS A construção: θεὸς ἦν ὁ λόγος possui a seguinte estrutura: θεός — predicativo ἦν — verbo ὁ λόγος — sujeito João coloca θεός antes do verbo. Isso é relevante porque o predicativo recebe destaque. Se João tivesse escrito: ὁ θεὸς ἦν ὁ λόγος a construção poderia favorecer uma identificação direta: “Deus era o Logos.” Mas essa formulação criaria tensão com a declaração imediatamente anterior: ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν “O Logos estava com Deus.” A construção escolhida por João permite afirmar simultaneamente: distinção e divindade. 12. A QUESTÃO DA REGRA DE COLWELL A chamada Regra de Colwell aparece frequentemente em debates sobre João 1:1. Mas ela costuma ser apresentada de maneira excessivamente simplificada. Não devemos dizer: “Colwell provou que todo substantivo sem artigo antes do verbo é definido.” Essa não é uma descrição adequada da questão. A análise de João 1:1 precisa considerar a categoria semântica de qualidade, além das categorias tradicionais de definição e indefinição. Portanto, não é metodologicamente correto resolver a passagem simplesmente com: “tem artigo” ou “não tem artigo”. A sintaxe precisa ser analisada como um todo. 13. ENTÃO “O LOGOS ERA DEUS” ESTÁ CORRETO? Sim. A tradução: “e o Logos era Deus” é uma tradução tradicional e linguisticamente defensável. Entretanto, ela precisa ser compreendida corretamente. João não está afirmando: “O Logos era o Pai.” A cláusula anterior impede essa interpretação simplista: ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν O Logos estava com Deus. Ao mesmo tempo: θεὸς ἦν ὁ λόγος O Logos é caracterizado como θεός. Portanto, João apresenta: Distinção ὁ λόγος ≠ τὸν θεόν Divindade θεὸς ἦν ὁ λόγος Essa tensão textual será extremamente importante para a posterior formulação da cristologia trinitária. 14. JOÃO 1:1 JÁ ENSINA A TRINDADE? Precisamos evitar anacronismos. João 1:1 não apresenta a doutrina trinitária na forma terminológica posteriormente desenvolvida nos credos. Não encontramos aqui uma formulação como: “um Deus em três pessoas, consubstanciais e coeternas.” Essa terminologia pertence ao desenvolvimento posterior da teologia cristã. Entretanto, João 1:1 apresenta dois elementos fundamentais: 1. O Logos é distinto de Deus ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν 2. O Logos possui natureza divina θεὸς ἦν ὁ λόγος Portanto, o texto é extremamente relevante para a cristologia que posteriormente seria articulada pela teologia trinitária. 15. O TESTEMUNHO MANUSCRITOLÓGICO É importante também entender como o texto aparece nos manuscritos. Os escribas cristãos frequentemente utilizavam nomina sacra, abreviações de nomes considerados sagrados. Assim, θεός podia aparecer abreviado como: ΘΣ ou formas equivalentes dependendo da convenção gráfica e da terminação do caso. Portanto, quando encontramos nos manuscritos uma forma abreviada de θεός, não estamos diante de uma palavra diferente. Estamos diante de uma abreviação paleográfica. Isso é importante para qualquer pessoa que queira começar a trabalhar diretamente com manuscritos gregos. 16. EXISTE UMA VARIANTE COM ὁ θεός? Sim. Há testemunhos posteriores que apresentam: καὶ ὁ θεὸς ἦν ὁ λόγος em vez de: καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος. A evidência manuscrita antiga, entretanto, apoia fortemente a forma sem artigo. P66, P75 e os grandes códices antigos são particularmente importantes nessa discussão. Estudos textuais observam que a leitura com o artigo possui testemunho muito mais tardio e limitado. � Bible.org Isso demonstra uma coisa metodologicamente importante: A ausência do artigo em João 1:1 não depende de uma decisão dos tradutores modernos. Ela está presente em testemunhos gregos antigos. 17. O QUE O TEXTO PERMITE AFIRMAR? Depois de considerar texto, manuscritos, gramática e contexto, podemos afirmar com segurança que João apresenta o Logos como: 1. Preexistente Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος 2. Distinto daquele chamado τὸν θεόν ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν 3. Divino θεὸς ἦν ὁ λόγος 4. Envolvido na criação πάντα δι᾽ αὐτοῦ ἐγένετο 5. Posteriormente encarnado ὁ λόγος σὰρξ ἐγένετο Esse conjunto de afirmações é muito mais importante do que uma discussão isolada sobre a presença ou ausência do artigo. 18. O QUE O TEXTO NÃO PERMITE AFIRMAR? Também precisamos estabelecer limites. João 1:1 não autoriza concluir: “θεός sem artigo significa ‘um deus’.” Também não autoriza concluir: “O Logos é o Pai.” E não devemos afirmar que João 1:1 apresenta já, com toda a terminologia posterior, a formulação dos credos trinitários. A exegese responsável distingue: o que João escreveu de como a Igreja posteriormente sistematizou essas afirmações. 19. CONCLUSÃO João começa seu Evangelho levando o leitor para antes da criação: Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος. O Logos não começa a existir em João 1:1. Ele já era. Em seguida, João afirma: ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν. O Logos está em relação com Deus, apresentando uma distinção entre o Logos e aquele a quem João chama de ὁ θεός. Finalmente: καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος. O substantivo θεός, colocado antes do verbo e sem artigo, caracteriza o Logos em termos de sua natureza divina. Portanto, a construção joanina não deve ser reduzida a: “O Logos era o Pai.” nem a: “O Logos era apenas um deus.” A força do texto está justamente em apresentar distinção pessoal e natureza divina. João 1:1, portanto, não é apenas uma frase sobre Jesus. É uma das afirmações fundamentais do Novo Testamento sobre quem é Jesus antes da encarnação.

Referências e fontes

Grand Rapids: Eerdmans. BROWN, Raymond E. The Gospel According to John I–XII. New York: Doubleday. HARRIS, Murray J. Jesus as God: The New Testament Use of Theos in Reference to Jesus. Grand Rapids: Baker. Fontes manuscritológicas: Institute for New Testament Textual Research (INTF). Center for the Study of New Testament Manuscripts (CSNTM).

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